Levantamento do GDF ouviu 5.093 pessoas e entrevistou 39 autores de feminicídio no Complexo da Papuda; estudo será institucionalizado para ser realizado a cada dois anos.
O Governo do Distrito Federal (GDF) apresentou nesta sexta-feira (12) a pesquisa Panorama da Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF) em parceria com a Secretaria da Mulher (SMDF) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape). O estudo ouviu 5.093 pessoas em 80 pontos de grande circulação em todas as regiões administrativas do DF e incluiu entrevistas em profundidade com 39 dos 50 homens presos por feminicídio no Complexo da Papuda, com autorização judicial. A governadora Celina Leão anunciou a assinatura de um decreto para institucionalizar a pesquisa e repeti-la a cada dois anos.
Metodologia e objetivo
A pesquisa teve dois objetivos principais: medir as diferentes formas de violência contra a mulher no Distrito Federal e compreender as motivações de homens presos por feminicídio de parceiras íntimas. Conforme o presidente do IPEDF, Manoel Clementino, a etapa com detentos exigiu articulação entre órgãos públicos e cuidados do sistema prisional para garantir a segurança dos pesquisadores.
Principais resultados e reconhecimento da violência
Entre os resultados apontados estão dados sobre a experiência de violência ao longo da vida: 77,6% das mulheres relataram já ter vivido alguma situação de violência; 44,8% reconheceram ter sido vítimas; e, entre essas, 15,4% ainda mantêm relação com o agressor. A dependência financeira foi identificada como principal fator associado à violência por parceiros íntimos.
O levantamento também mostrou dificuldade no reconhecimento de formas de violência: 49,4% dos entrevistados não consideram que negar acesso ao próprio dinheiro seja sempre violência. Apenas 33,8% das mulheres e 19,7% dos homens identificaram corretamente todas as situações apresentadas. Persistem percepções distorcidas sobre o papel da mulher, com concordância a frases como ‘toda mulher é um pouco histérica’ (35,4%), ‘mulher é o sexo frágil’ (34,9%) e ‘tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama’ (33,3%), maior entre os homens.
Padrões comportamentais identificados
As entrevistas com autores de feminicídio indicam que o crime decorre de trajetórias marcadas por padrões de masculinidade ligados à autoridade, controle e dificuldade em lidar com conflitos. Foram identificados comportamentos de escalada da violência, como controle de celular, ameaças, agressões físicas e uso de armas.
O secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, afirmou que os dados refletem a rotina das forças de segurança e citou o programa DF 360, que monitora ocorrências em tempo real. Segundo ele, ‘às vezes, durante a noite ou no fim de semana, a cada 10 ou 15 minutos surge um alerta de violência doméstica com a geolocalização de mulheres que ligam para o 190’. Patury acrescentou que muitos casos são subnotificados porque muitas mulheres não acionam a polícia por medo e destacou a dimensão patrimonial como fator relevante nos casos investigados.
Medidas do GDF e caminhos para prevenção
A governadora anunciou que publicará decreto para institucionalizar a pesquisa a cada dois anos, com o objetivo de compor perfil e parâmetros locais para subsidiar políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção.
Desde 2019, o GDF amplia ações de defesa das mulheres: criação da Secretaria da Mulher, inauguração da Casa da Mulher Brasileira em Ceilândia, instituição da Força-Tarefa contra o Feminicídio, criação do programa Acolher Eles e Elas e do Comitê de Proteção à Mulher. Na gestão atual foram implantados 17 novos equipamentos públicos, elevando a estrutura para 31 unidades de atendimento e acolhimento. Em 2025 a secretaria registrou mais de 70 mil atendimentos diretos e alcançou mais de 100 mil mulheres por meio de programas e ações, com investimentos superiores a R$ 86 milhões. Está prevista, ainda, a abertura da Casa da Mulher Brasileira no Plano Piloto neste ano.
A Secretaria da Mulher também intensificou campanhas e ações de mobilização social, como A Sua Denúncia Salva, Agosto Lilás, Mulher, Não se Cale, Feminicídio Zero e 21 Dias de Ativismo, além de ações itinerantes de orientação à população.
Relatórios completos e dados detalhados da pesquisa estão disponíveis no site do IPEDF.
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