Audiência na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara apresentou dados sobre impactos psicológicos de desastres climáticos.
26/05/2026 – 18:46 — Nove em cada dez municípios brasileiros registraram desastres climáticos entre 1991 e 2023, segundo dados apresentados em audiência pública na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados, realizada nesta terça-feira (26). A sessão debateu a criação da Política Nacional de Saúde Mental Climática prevista no PL 6151/25.
Proposta e objetivos
O projeto estabelece diretrizes para o SUS prevenir e tratar traumas, ansiedade e outros impactos psicossociais causados por desastres ambientais e eventos climáticos extremos. A proposta prevê acompanhamento contínuo e acolhimento para vítimas, familiares e equipes de resgate, além de ações articuladas entre saúde, educação e defesa civil.
Relatos das vítimas
A audiência reuniu especialistas e pessoas atingidas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. A agricultora Elida Dias descreveu perdas materiais e deslocamento: morou por três meses em um barraco de lona e viveu por 24 dias em Sertão Santana após deixar Eldorado do Sul. Ela relatou perdas de animais e isolamento social, e disse: “Perdi as cem galinhas, perdi as vacas, perdi porco. Até hoje ninguém perguntou se eu precisava de alguma coisa. Ficaram cinco galinhas em cima do telhado por mais de um mês. Quando voltamos, elas não conseguiam mais caminhar. Não está sendo fácil. As pessoas caminham de cabeça baixa, todo mundo se isolou. Eu comparo as pessoas a vasos. Tem vaso quebrado, vaso trincado e vaso faltando pedaço. Esses vasos precisam ser reconstruídos.”
Acompanhamento contínuo
O relator da proposta, deputado Gilson Daniel (Pode-ES), afirmou que o projeto cria uma política pública permanente para atendimento psicossocial em situações de desastres climáticos. “Reconstrução não significa apenas recuperar pontes, estradas e moradias. Também significa restaurar vínculos humanos, oferecer acolhimento psicológico e fortalecer as comunidades.”
A fundadora da ONG Time To Act, Luciana Brafman, apoiou a iniciativa e defendeu a criação de espaços permanentes: “Ele é fundamental para termos espaços permanentes em regiões vulneráveis a desastres climáticos. Isso dá segurança psicológica às pessoas, porque elas sabem onde buscar apoio se acontecer outra tragédia”. O texto do projeto também prevê a criação de centros comunitários voltados à recuperação emocional.
Consequências psicológicas
O pedagogo de emergência e terapeuta social Reinaldo Nascimento relatou reações observadas após tragédias, como crianças que voltaram a urinar na cama. Segundo ele, muitas famílias entram em pânico e não reconhecem essas reações como comuns após um desastre.
A especialista Débora Noal, da Força Nacional do SUS, afirmou que a retomada da produção agrícola ajuda na saúde mental das famílias. Ela também citou um episódio de 2011 para alertar sobre riscos: “Uma indústria farmacêutica distribuiu benzodiazepínicos (sedativos para dormir) para moradores atingidos. Depois, ocorreram novos deslizamentos. As crianças conseguiram fugir, mas muitos adultos medicados não acordaram a tempo”.
Recuperação econômica
O agricultor Hélio Dias, morador de Eldorado do Sul, destacou a necessidade de recuperar meios de subsistência para reconstruir vidas. Ele relatou que maquinário ficou cerca de 15 dias submerso e defendeu a criação de um fundo rotativo para financiar a produção.
Reportagem – Luiz Cláudio Canuto
Edição – Geórgia Moraes
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