Sessão solene na CLDF reuniu artistas e profissionais para debater representatividade, segurança e políticas públicas para a cena independente no DF.
A Câmara Legislativa do Distrito Federal homenageou na noite de quinta-feira (27) profissionais que integram a cena do rock local, em sessão solene no plenário da Casa. Com apresentação de uma versão do Hino Nacional executada com guitarra distorcida, teclado e voz, o evento teve como tema “Mulheres do Rock: cultura, trabalho e políticas públicas para o fortalecimento da cena independente no DF” e foi proposto pela deputada Dayse Amarilio (PSB) para discutir desafios do setor e reivindicar maior reconhecimento.
Trajetórias e representatividade
A guitarrista e produtora cultural Sara Abreu, da banda Estamira, relatou sua trajetória até se tornar profissional da música, lembrando que comprou o primeiro instrumento com a venda de amendoim em semáforos. Ela atribuiu a evolução profissional ao incentivo recebido de mulheres e afirmou que a presença feminina pode inspirar novas gerações: “Hoje vivo da música graças ao incentivo de mulheres fortes que acreditaram em mim e me ajudaram a chegar a um lugar que eu jamais imaginei alcançar quando era criança”.
A pesquisadora e produtora cultural Nina Puglia Oliveira apresentou dados sobre a cadeia produtiva da música e a economia da cultura no DF. Segundo ela, as questões de gênero permeiam todo o setor, e a insegurança limita o acesso de mulheres a eventos. “As pesquisas mostram que muitas mulheres têm medo de consumir cultura. Em eventos noturnos e de grande porte, a segurança continua sendo uma questão fundamental”, afirmou.
Origens do rock e protagonismo feminino
A atriz, comunicadora e pesquisadora Sheila Campos defendeu o reconhecimento das raízes negras do rock e do protagonismo feminino na construção do gênero, citando a cantora e guitarrista norte-americana Sister Rosetta Tharpe como referência histórica. Sheila afirmou que, por esse motivo, a presença das mulheres deve ser ampliada não apenas em comemorações, mas em todos os espaços culturais e criativos ligados ao rock: “Se o rock é preto e seu primeiro registro é criação de uma mulher, é mais do que legítima a nossa presença”.
Ela também reivindicou maior participação feminina em posições de comando, incluindo funções de instrumentista, compositora, empresária, produtora e gestora de estúdios e meios de comunicação.
Políticas públicas e participação social
A vocalista da banda Estamira e pesquisadora Ludmila Gaudad destacou a necessidade de transformar o discurso em políticas públicas e disse que a presença nos espaços de decisão é essencial para o controle social: “É preciso sair do discurso para construção de política pública. E onde a gente consegue isso? Estando aqui dentro, fazendo controle social”.
A jornalista e produtora cultural Luciana Ribeiro apresentou o coletivo Roqueiras BR, criado em 2025 no Distrito Federal para fortalecer a participação feminina no rock em palcos e bastidores. Ela afirmou que, além de visibilidade, as mulheres do setor reivindicam condições concretas de trabalho, incluindo rede de apoio e serviços públicos. “Como produzir cultura sem rede de apoio? Essa rede precisa vir também do Estado. Precisamos de creches”, afirmou, relacionando a falta de apoio a dificuldades para deixar filhos e exercer atividades profissionais.
A produtora cultural Ivanete Feitosa chamou atenção para o caráter coletivo da mobilização entre mulheres da cena cultural e ressaltou a importância da união. A deputada federal Erika Kokay (PT-DF), presente ao evento, afirmou que a presença feminina no rock é forma de enfrentamento ao machismo e à exclusão: “As mulheres no rock significam a luta contra uma sociedade sexista e a defesa do direito de ocupar todos os espaços que a nossa humanidade permite”.
A deputada Dayse Amarilio ressaltou a importância histórica do Distrito Federal para o rock e defendeu a organização coletiva para ampliar a visibilidade do movimento, afirmando que a homenagem pode ser um ponto de partida para a construção de políticas públicas voltadas ao setor.
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