Pais de crianças com distrofia muscular de Duchenne pedem fim da suspensão do Elevidys em audiência na Câmara dos Deputados.
Em 16/06/2026 – 18:44, pais de crianças com distrofia muscular de Duchenne e parlamentares pediram à Anvisa a liberação do Elevidys durante audiência pública na Câmara dos Deputados. A venda e o uso do medicamento estão suspensos temporariamente no Brasil desde julho de 2025, conforme debatedores.
O pedido dos familiares e o relato dos pais
Pais e familiares relataram o impacto da doença e defenderam a retomada do acesso ao medicamento. Humberto Scherer, pai do primeiro paciente a receber o Elevidys no país, criticou a decisão da agência e exibiu um vídeo do filho Guilherme, de 7 anos, correndo e subindo escadas.
“A trajetória da nossa vida é um ponto de interrogação. Para as crianças com Duchenne, é um ponto final. Esse medicamento dá a chance de essa criança ter esse ponto de interrogação e ter uma vida”, disse Scherer.
O médico Erick Cavalcanti, pai de outro paciente que manteve força muscular por dois anos após a aplicação, pediu o fim da suspensão, que já dura 11 meses. “Não houve registro de reações graves em crianças de 4 a 7 anos, idade aprovada pela Anvisa em 2024”, afirmou Cavalcanti.
Familiares também protestaram durante o debate, segundo registros da sessão.
Argumentos da Anvisa e motivos da suspensão
A Anvisa informou que a suspensão preventiva do Elevidys ocorreu após o registro de três mortes de pacientes nos Estados Unidos atribuídas a falência do fígado. A agência aguarda informações complementares da Roche Farma Brasil sobre eficácia e estudos de acompanhamento de longo prazo.
João Batista da Silva Júnior, gerente de Sangue, Tecidos, Órgãos e Produtos de Terapias Avançadas da Anvisa, explicou que o medicamento recebeu um registro excepcional e condicional em dezembro de 2024. A autorização exigia a entrega de relatórios anuais de monitoramento, e a farmacêutica, por uma mudança de protocolo, deixou de enviar dados sobre a eficácia.
“Não estamos falando de dipirona. Estamos falando de um produto complexo, de riscos, de populações que precisam ser respeitadas do ponto de vista de dar a esperança adequada”, declarou Silva Júnior.
Segundo o gerente, dados de 2026 indicam que os pacientes começam a piorar a partir do terceiro ano de tratamento. A agência também identificou que metade dos seis eventos adversos no Brasil ocorreu por uso fora das especificações da bula (off-label). “A Anvisa fez, então, uma suspensão cautelar para tentar entender o que estava acontecendo”, justificou.
Como alternativa, a Anvisa analisa o medicamento Givinostat, com resultado previsto para o bimestre de julho e agosto de 2026.
Posições de parlamentares e propostas
O debate na Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência foi proposto pelo deputado Max Lemos (União-RJ). “Hoje está provado que o Elevidys traz esperança”, afirmou Lemos. O deputado adiantou que pretende apresentar um projeto de lei para destinar recursos das bets para custear o medicamento no SUS.
O deputado Vitor Lippi (PSD-SP), que é médico, defendeu rapidez na liberação do Elevidys e argumentou que riscos de lesão hepática ocorrem com outros medicamentos. “Essa questão de ter efeito hepático é bastante frequente entre os medicamentos, o que não significa que eles são proibidos ou haja um impedimento de uso”, disse Lippi.
A advogada Daniela Forti questionou a Anvisa sobre se a perda de tempo para o paciente seria pior do que a falta de dados técnicos. Silva Júnior respondeu que é preciso descobrir se a piora após o segundo ano é causada pela falha do remédio ou pela evolução natural da doença. Forti sugeriu a devolução do acesso provisório ao produto e propôs a continuidade do registro com excepcionalidades para averiguação.
A diretora do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde do Ministério da Saúde, Luciene Bonan, afirmou que a pasta considera aceitável analisar a inclusão do Elevidys no SUS, mas que o governo federal aguarda a decisão final da Anvisa sobre o registro da fórmula.
Reportagem – Murilo Souza
Edição – Geórgia Moraes
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