Graduandos manifestam preocupação com a adoção da inteligência artificial e pedem voz nas decisões sobre emprego, educação e políticas públicas.
Brad Smith, vice-presidente do conselho e presidente da Microsoft, afirmou nas últimas semanas que graduandos nos Estados Unidos reagiram de forma expressiva ao tema da inteligência artificial durante cerimônias de formatura, destacando a necessidade de ampliar a participação pública nas decisões sobre a tecnologia. Segundo Smith, a reação estudantil ocorreu durante formaturas em vários campi, incluindo o fim de semana do Memorial Day na Universidade de Princeton, e reflete perguntas sobre como a IA afetará empregos e dignidade do trabalho.
O recado dos estudantes
A reação dos formandos incluiu protestos a referências à IA e ações simbólicas, conforme relatos sobre um episódio em que responsáveis por turmas de Princeton rejeitaram um desenho popular para a jaqueta da turma porque foi criado com auxílio de IA. Em resposta, os graduandos passaram a exibir jaquetas identificadas como “100 por cento de algodão” e “100 por cento humana”, segundo relatos estudantis.
De acordo com um estudo da Microsoft, os condados com grandes cidades universitárias têm taxas mais altas de adoção de IA, e quando quem usa uma tecnologia critica seu uso, a indústria deve levar isso em conta. O relatório também estima que 17,8% da população mundial já utiliza IA generativa e que a taxa nos Estados Unidos é de 31,3%, dados que Smith citou ao situar a difusão da tecnologia.
Ambição humana e história tecnológica
Smith resgatou exemplos históricos para contextualizar a reação atual. Ele lembrou que, em 1838, a câmera levou críticos a prever o fim da pintura, mas que a criatividade humana se adaptou e novos movimentos artísticos surgiram nas décadas seguintes, como o impressionismo e o cubismo. Para ele, a criatividade humana se mostrou resiliente e encontrou novas formas de expressão mesmo com tecnologias que substituíram tarefas especificas.
O executivo também relativizou previsões de mudança rápida, apontando que a difusão tecnológica depende da velocidade de mudança humana, organizacional e institucional, conforme estudos citados por Smith. Ele recomendou agir com rapidez e preparo, mas sem precipitação.
Aplicações práticas e exemplos de uso
Smith citou projetos do AI for Good Lab e exemplos de uso da IA em áreas como detecção de incêndios na Califórnia, apoio jurídico a mulheres na África, identificação de minas em áreas da Ucrânia e auxílio a agricultores em práticas sustentáveis. Esses casos foram apresentados para mostrar que a IA pode ampliar o impacto do trabalho humano quando usada como ferramenta.
Orientações para indivíduos
Para preparar-se para o futuro, Smith indicou conselhos práticos já debatidos em obras como Open to Work, de Ryan Roslansky e Aneesh Raman. Segundo ele, trabalhadores devem listar as tarefas do seu trabalho e classificá-las em três grupos: tarefas que a IA pode fazer, tarefas que podem ser feitas com IA e tarefas que só humanos devem executar. Smith afirmou que, para a maioria das pessoas, muitas tarefas cairão no segundo grupo e que convém desenvolver fluência em IA aliada à especialização em um campo de interesse.
Ele também destacou cinco competências humanas que podem diferenciar profissionais na era da IA: curiosidade, criatividade, compaixão, comunicação e coragem, citadas como essenciais para o julgamento humano e a supervisão do trabalho automatizado.
Impacto para empresas e proteção de conhecimento
Para organizações, Smith defendeu que a IA deve fortalecer expertise em produtos, processos e conhecimento do cliente, e não substituí-la. Ele apontou que as empresas podem construir sistemas internos combinando múltiplos modelos de IA e dados próprios para melhorar desempenho ao longo do tempo. Nesse contexto, preservação de propriedade intelectual, segredos comerciais e controle de dados foram citados como necessários para que os benefícios da IA não transfiram a vantagem competitiva para provedores externos.
Smith afirmou que garantir soberania de dados e privacidade é crucial para que diferentes setores econômicos aproveitem a IA sem perder sua experiência única, algo que afeta graduações, economias e nações.
Conversa pública e responsabilidades compartilhadas
Dada a magnitude da transformação, Smith defendeu esforços colaborativos entre setores público e privado para preparar as pessoas para a era da IA. Ele disse que as mudanças das últimas décadas deixaram muita gente para trás e que será preciso experimentar abordagens baseadas em responsabilidades compartilhadas.
Smith citou a necessidade de incluir uma variedade de vozes na discussão — empresas tecnológicas, empregadores, governos, organizações sem fins lucrativos, estudantes, líderes religiosos, sindicatos e trabalhadores — e mencionou declaração de Liz Schuler, presidente da AFL-CIO, enfatizando que quem trabalha melhor conhece os locais de trabalho.
O papel da Microsoft e exemplos históricos
A empresa, afirmou Smith, pretende contribuir com tecnologia e experiência prática para ajudar trabalhadores e organizações a adaptar-se. Ele lembrou casos anteriores em que novas ferramentas transformaram o trabalho — do processamento de texto às planilhas e ao e-mail — e argumentou que a tecnologia, ao aumentar a oferta, costuma gerar novas demandas e oportunidades.
Smith ressaltou que o sucesso da Microsoft está ligado ao emprego global e que a empresa tem interesse em ajudar as pessoas a usar tecnologia para buscar melhores empregos.
Convite à ação para a próxima geração
As reações em formaturas, concluiu Smith, são um chamado para que a indústria e as instituições elevem o nível de responsabilidade. Ele afirmou que os graduandos estão em posição para influenciar o futuro, pois cresceram com tecnologia e têm maior facilidade para se adaptar às mudanças introduzidas pela IA. O executivo pediu que essa geração defenda valores como agência, ambição e dignidade no trabalho enquanto participa das decisões sobre tecnologia.
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